Análise terminável e interminável
- Fabiano Parreiras
- há 3 dias
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"Análise Terminável e Interminável" é um dos mais importantes e influentes textos escritos por Sigmund Freud. Foi publicado em 1937 e é considerado um de seus últimos grandes trabalhos teóricos, no qual o autor fala dos limites e das possibilidades da terapia psicanalítica, questionando se uma análise pode ser verdadeiramente "concluída" ou se ela é, por natureza, um processo sem fim. Reflete, portanto, sobre os limites da eficácia terapêutica da psicanálise.
No texto, Freud apresenta alguns casos clínicos e atribui o avanço de um deles à fixação de um prazo para atendimento ao paciente. Trata-se de um jovem "estragado pela opulência", que chegou a Viena em estado de desamparo. Demonstrando certa resistência à análise, o jovem passou a avançar no processo quando Freud fixou uma data, a partir da qual não mais o atenderia. Este é o exemplo central para discutir a técnica de fixar um limite de tempo para o fim da análise.
Freud esclarece que há perfis de pacientes adequados para a psicanálise breve, enquanto outros não experimentariam resultados neste modelo. Além de apresentar características de ambos os perfis de pacientes, Freud apresenta recomendações de técnicas de atendimento.
Temos a impressão de que a psicanálise é a terceira daquelas profissões 'impossíveis', em que se pode estar seguro de resultados insatisfatórios. As outras duas são a educação e o governo.
Freud já inicia o ensaio chamando a atenção para o risco de um prazo estipulado para um processo de psicanálise, já que cada paciente tem um tempo próprio de resolução das suas questões. O autor diz que a medicina tratava as neuroses como “consequências importunas de danos invisíveis”, não sendo, portanto, merecedoras de esforços prolongados no intuito de resolvê-las. Mas com o advento da Psicanálise, já se devia saber que não é bem assim. E de maneira bem característica, pois Freud costumava confrontar quem discordava de suas ideias. Ele ataca a obra “O Trauma do Nascimento” (1924), de Otto Rank, acusando-o de tentar resumir a causa das mais diversas formas de sofrimento psíquico a um único episódio da vida humana – o nascimento. A tese do colaborador freudiano de outrora estaria simplificando demasiadamente as questões psíquicas e o tratamento de todas elas, numa tendência daquela época, tracionada pelo modo de vida frenético e pelas ideias de produtividade e prosperidade dos Estados Unidos.
Em seguida, Freud lembra de um jovem russo que havia sido seu paciente. O homem teria chegado em grave estado de “desamparo”, mas experimentou significativa melhora passando pela psicanálise. No entanto, seu progresso estagnou em algum momento. Astutamente, Freud percebeu que se tratava de uma espécie de comodismo. Estipulou, então, um ano de prazo para o fim do tratamento. Ao perceber que seu médico estava decidido a encerrar a psicanálise na data estipulada, o paciente foi baixando suas resistências e voltou a avançar sensivelmente. Esta experiência foi, sem dúvida, um marco na criação do que chamamos hoje de Psicoterapia Breve Psicanalítica. Freud
Ainda neste primeiro capítulo, o autor avisa que cada psicoterapeuta deve avaliar cuidadosamente a necessidade de fixar um prazo para a conclusão de um tratamento. Uma vez fixado o prazo, o terapeuta deve cumpri-lo, sob pena de colocar sua confiabilidade em xeque caso não o faça.
O segundo capítulo começa questionando a existência ou não do fim de uma análise. Freud chega a ser bem humorado ao dizer que, ao julgarem o trabalho de um outro “mortal” psicanalista, alguns colegas afirmam que tal análise não teria chegado ao fim. E deveria haver um fim? O que seria o término de uma análise? Na prática, seria analista e analisando não mais se encontrarem. Em tese, seria o momento em que ambos concluíssem não haver mais o que analisar, uma vez que todas as fixações, traumas e material reprimido do paciente tivessem sido superados; que o indivíduo estivesse usufruindo de todas as suas potencialidades, sendo produtivo no trabalho e na vida pessoal; que se tivesse atingido uma vida plena, saudável, sem sofrimento psíquico. Um processo de análise chegaria ao fim quando a neurose do paciente fosse resolvida, não retornasse e não fosse substituída por outro distúrbio.
Em outras palavras, Freud propõe duas definições para o fim de uma análise:
1. Sentido Prático: Quando o paciente não sofre mais de sintomas, superou inibições e o analista julga que material reprimido suficiente tornou-se consciente para evitar a repetição do processo patológico.
2. Sentido Ambicioso: Se a análise exerceu uma influência tão profunda que nenhuma mudança ulterior ocorreria se o tratamento continuasse — uma espécie de "normalidade psíquica absoluta".
Esse sucesso ocorreria em condições específicas:
• Ego Preservado: O ego do paciente não foi significativamente alterado.
• Causa Traumática: A origem (etiologia) do distúrbio foi essencialmente traumática.
Freud argumenta que toda neurose tem uma causa mista, sendo uma combinação de fatores constitucionais (instintos muito fortes que o ego não consegue "amansar") e acidentais (traumas precoces que o ego imaturo não suportou).
No entanto, afirma que uma etiologia predominantemente traumática oferece o cenário mais favorável para a análise. Nesses casos, a terapia consegue fortalecer o ego do paciente, permitindo-lhe substituir a "decisão inadequada" (a neurose) tomada no passado por uma solução correta. Apenas nesses casos predominantemente traumáticos, conclui Freud, é que se poderia falar de uma análise "definitivamente terminada". Ainda assim, pondera que, se o paciente permanece saudável, não é possível saber se isso se deve inteiramente à cura analítica ou a um "destino bondoso" que o poupou de novas provações severas.
Ou seja, um instinto favoravelmente constituído e um ambiente positivo ajudarão o paciente. Ainda assim, fatores externos inesperados podem deslocar novamente o Ego. Freud dá dois exemplos disso. No primeiro, conta o caso de um homem bastante ciumento que se submeteu à análise e se viu livre da sua neurose, chegando a casar-se com o amor da sua vida, enquanto se transformava em “amigo e mestre de seus supostos rivais”. Contudo, tempos depois, o homem colocou o próprio analista no lugar de rival, acusando-o de não ter feito um bom trabalho. O segundo exemplo é o de uma mulher que não conseguia caminhar com as próprias pernas, sem que os médicos conseguissem identificar uma causa – caso clássico de histeria. Depois de nove meses de psicanálise, a mulher voltou a andar e ficou feliz com isso, mas nos doze ou quatorze anos seguintes, foi passando por fortes reveses.
Houve desventuras em sua família, perdas financeiras e, à medida que ficava mais velha, via desvanecer-se toda esperança de felicidade no amor e casamento.
Conquistando o apoio de pessoas próximas, a mulher seguia resistindo a tudo, até que um exame ginecológico detectou um mioma que a levou a uma histerectomia completa.
A partir da ocasião dessa operação, a mulher mais uma vez caiu doente. Enamorou-se de seu cirurgião, afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temíveis alterações dentro de si - fantasias com que ocultava seu romance - e mostrou-se inacessível a uma nova tentativa de análise. Ela permaneceu anormal até o fim da vida.
Será que os dois exemplos provariam que os pacientes podem experimentar alguma melhora de seus sintomas, mas a causa destes é impossível de ser removida pela psicanálise, o que levaria os pacientes a recaídas de uma ou outra forma? Ou ambos pacientes se trataram nos primeiros anos de descoberta da Psicanálise, época em que a técnica ainda não contava com todos os recursos dos quais veio a dispor? Ou, ainda, provariam, os dois exemplos, ser necessário manter-se em análise por tempo indeterminado para manter-se saudável?
No terceiro capítulo, Freud avança sobre essas questões, sem responde-las cabalmente. Ele explica como ocorrem as neuroses e como a Psicanálise trabalha para curá-las. As neuroses surgem quando o Ego falha em resistir a um instinto. Desde o início da vida, o Ego vai resistindo às pulsões inadmissíveis, mesmo que de forma precária, imatura. Quando uma pulsão é muito forte, o Ego pode falhar. O foco da Psicanálise é o fortalecimento do Ego, antes imaturo e um tanto frágil, para que se consiga “amansar” o instinto. Por meio de insights, o analisando vai ampliando sua percepção sobre si e sobre o ambiente, o que resulta num Ego mais maduro.
Assim como fez em outras de suas obras, Freud usa o quinto capítulo como acessório ou suporte ao tema principal. Com toda sua didática, ele não fala diretamente sobre o assunto que dá título ao ensaio, mas explica algumas características da psicanálise que serão importantes para que o leitor compreenda a Psicoterapia Breve – ou seja, a Análise Terminável. O autor explica que o ego reprime ou adapta os conteúdos do id para sobreviver. Tais mecanismos têm como objetivo manter o sujeito afastado do perigo, apesar de não serem efetivos. Ao contrário, a repressão e outros mecanismos de defesa costumam, eles próprios, gerar efeitos adversos. Acontece que os indivíduos seguem utilizando, na vida adulta, as táticas que os protegeram em seus primeiros anos de vida. Em situações que se pareçam com suas primeiras experiências, tais recursos são novamente acionados. A boa notícia é que durante as sessões de análise, de frente ao analista, o paciente também lança mão de seus mecanismos de defesa. O analista devidamente preparado, reconhecerá tais mecanismos, os quais darão pistas importantes do tipo e do tempo do trauma vivido pelo paciente. Contudo, declarar suas suspeitas e apontar as defesas usadas pelo paciente seria um erro definitivo para o analista, que somente obteria, da parte do paciente, defesas contra o tratamento.
A questão do capítulo seguinte é saber se toda alteração do ego é adquirida durante as lutas defensivas dos primeiros anos. Tendo como assunto já discutido que a genética é determinante nas opções de defesas disponíveis em cada de nós, Freud observou que algumas pessoas são bastante rígidas e a elas é custoso mudar de pensamento e comportamento, como resultado da análise. Outras, para alegria momentânea do analista, logo mudam suas concepções acerca das coisas, porém, da mesma forma que pareciam ter adquirido melhor visão de mundo na análise, passam a outra visão sob outras influências, quase imediatamente.
Ainda no capítulo VI, Freud menciona a pulsão de morte, teoria esta que ainda hoje é debatida e muitas vezes desacreditada por grandes nomes da psicanálise. Menciona, também, o assunto da homossexualidade. Freud diz que todo ser humano tem os instintos homossexual e heterossexual. Porém, uma vez que um deles recebe mais energia, o outro é anulado, pois “cada indivíduo só possui à sua disposição uma certa cota de libido, pela qual as duas inclinações rivais têm de lutar”. Concluímos este capítulo nos perguntando quais influências terão tais teorias sobre a questão da análise terminável versus interminável.
Eis que, no capítulo VII, Freud volta a falar sobre o problema da terminação das análises, lembrando que Ferenczi havia lido um artigo sobre o tema em 1927.
Ele finda com a confortadora garantia de que ‘a análise não é um processo sem fim, mas um processo que pode receber um fim natural, com perícia e paciência suficientes por parte do analista.
Freud esclarece que o foco da análise não deve ser no seu término, mas, segundo Ferenczi, no seu aprofundamento. Além de dizer que a aliança cliente – analista é primordial para o sucesso da análise, Freud lembra que o analista deve ter superado seus próprios limites para conseguir ajudar seus pacientes. Ao contrário da medicina tradicional, em que um médico que tenha um problema coronariano pode muito bem tratar de um outro doente do coração, na psicanálise, é diferente. Os próprios defeitos do analista podem interferir em sua efetivação de uma avaliação correta do estado de coisas em seu paciente e em sua reação a elas de maneira útil. O psicanalista, portanto, deve ser uma pessoa saudável do ponto de vista psíquico. Não obstante, é desejável que tenha certo nível intelectual, pois será observado pelos pacientes como referência e, muitas vezes, servirá a eles como modelo. Freud, então, esclarece que não somente pessoas do mais alto nível possam ser psicanalistas, mas alguém que se compromete a sê-lo deverá aperfeiçoar-se, em primeiro lugar, passando pela psicanálise.
Por razões práticas, essa análise só pode ser breve e incompleta. Seu objetivo principal é capacitar o professor a fazer um juízo sobre se o candidato pode ser aceito para formação posterior. Essa análise terá realizado seu intuito se fornecer àquele que aprende uma convicção firme da existência do inconsciente, se o capacitar, quando o material reprimido surge, a perceber em si mesmo coisas que de outra maneira seriam inacreditáveis para ele, e se lhe mostra um primeiro exemplo da técnica que provou ser a única eficaz no trabalho analítico.
Um psicanalista é alguém que está em formação permanente, desenvolvendo autoconsciência, autoestima, autoconfiança e controle emocional. Para isso, deve voltar à sua análise pessoal a cada cinco anos. Com isso, Freud não quer dizer que a Psicanálise seja algo sem fim, invariavelmente. Termina o capítulo esclarecendo que “a missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego; com isso, ela se desincumbiu de sua tarefa”.
No capítulo VIII, Freud termina seu ensaio com a famosa menção ao complexo de castração – a eterna luta do homem contra sua atitude passiva ou feminina para com outro homem e, no caso das mulheres, a inveja do pênis. Freud vê isso como um fator biológico que marca o limite final da análise, onde as atividades analíticas encontram seu fim.
Talvez, o que melhor resume todo o ensaio de Freud seja a “advertência a não visar a abreviar a análise, mas a aprofundá-la”. Sendo assim, o psicanalista deve estar atento à saúde psíquica do paciente, em primeiro lugar. Caso o estabelecimento de um prazo para a conclusão do processo se torne conveniente para instigar o paciente, que se estabeleça e se cumpra o prazo.
Pela variedade de assuntos e por seus postulados, “Análise Terminável e Interminável” é um texto obrigatório a todo Psicanalista. Em especial, àqueles que desejam atuar com executivos e gestores empresariais, público cuja ânsia por resultados rápidos e substanciais é maior a cada dia.
Por fim, vale tecer um elogio à genialidade de Sigmund Freud, autor do primeiro método psicoterapêutico estruturado da história da humanidade. Ler as obras deste gênio é sempre um enorme aprendizado como pessoa e como psicanalista.



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