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Freud e a religiosidade

  • Foto do escritor: Fabiano Parreiras
    Fabiano Parreiras
  • há 3 dias
  • 10 min de leitura

CONTEXTUALIZANDO


Sigmund Freud era um judeu na Europa antissemita da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Em seu livro “A interpretação dos sonhos” (1900), Freud conta que, quando era garoto, estava caminhando com o pai e este lhe contou uma experiência de juventude. Um homem cristão teria arrancado seu chapéu da cabeça, atirado na lama e ainda o insultado, chamando-o de “judeu porco”. Anos antes, a babá cristã do menino Freud havia sido demitida por leva-lo à igreja e ensinar-lhe sobre o cristianismo. Ao longo da vida adulta, os estudos de Freud o levaram a uma visão lógica e pouco espiritualizada do ser humano. “O instinto e suas vicissitudes” (1915) eram não apenas o título de um de seus textos, mas alguns de seus alvos preferidos de estudos.


Sendo assim, Freud não nos surpreende com sua intepretação cética e fria da religião, afirmando que a crença em Deus provém de uma necessidade infantil do ser humano – a de uma figura paterna, protetora e ordenadora, que garanta sua sobrevivência. Numa demonstração de forte cultura geral e amplo embasamento bibliográfico, em “Totem e Tabu” (1913), Freud relaciona diversos fatores comuns de diferentes religiões, argumentando que a religiosidade é mantida pela humanidade como meio de contenção do incesto e da violência. Mas o alvo deste trabalho é uma de suas obras mais conhecidas – “O Mal-Estar da Civilização” (1930). Neste livro, Freud afirma ser a religião um fenômeno cultural que nasce da necessidade humana de lidar com a angústia e o desamparo diante da vida.


Afinal, e se a teoria freudiana estiver certa, mas não for a única verdade sobre a religiosidade? E se tivermos a necessidade de uma figura paterna que nos mantenha autoconfiantes e seguros de nós mesmos e essa figura realmente existir? E se a ciência estiver numa escalada, em cujo pico encontrará Deus?


As ideias de Freud, o médico neurologista que criou o primeiro método psicoterapêutico estruturado da história, têm sido usadas para curar a dor de muitas pessoas pelo mundo. Este artigo convida a verificar se essas ideias são compatíveis com o que prega a religiosidade, com um olhar especial sobre o Catolicismo e sobre o livro O Mal-Estar da Civilização.


O CATOLICISMO E OUTRAS RELIGIÕES


O Cristianismo é a maior e mais difundida religião do mundo, com cerca de 2,4 bilhões de seguidores – um terço da população global, espalhada em 157 países e territórios. Segue conquistando novos fiéis há mais de 2.000 anos.

Estima-se que haja mais de 4.000 religiões pelo mundo. Mas as religiões com maiores números de adeptos são geralmente classificadas assim:

• Cristianismo – cerca de 2,4 bilhões

• Islamismo – cerca de 1,9 bilhão

• Hinduísmo – aproximadamente 1,2 bilhão

• Budismo – em torno de 500 milhões


O Catolicismo Romano é a maior vertente do Cristianismo. A Bíblia Sagrada Católica reúne um total de 73 livros, sendo 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. Dentre esses últimos, estão os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que relatam milagres realizados, passagens da vida de Jesus Cristo e parábolas por Ele contadas com notável coerência. O livro sagrado apresenta ensinamentos como “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mateus 22,37-39) – Mandamento adaptado do Antigo Testamento e colocado por Jesus no centro da fé cristã.


Curiosamente, há vários casos de santos católicos que contribuíram fortemente para com as Ciências, como São Tomás de Aquino (Século XIII), renomado teólogo e filósofo, santo e Doutor da Igreja, cuja síntese entre razão natural e teologia especulativa marcou profundamente a escolástica medieval.


Com algumas exceções, os fiéis das mais diferentes religiões buscam, em geral, paz de espírito, orientações para uma boa vida terrena e a promessa de uma condição post mortem que lhes inspire a enfrentar a morte sem medo. De todos os sinais de que a religiosidade é o caminho certo neste sentido, entre os mais impressionantes estão os casos de corpos incorruptos dentre figuras católicas. Alguns dos mais conhecidos:


Santo / Beato

Observações Principais

Santa Bernadette de Lourdes

Exumação em 1909 → corpo intacto, sem odor

Santa Cecília

Primeiro caso histórico reconhecido

Santa Catarina Labouré

Exumação após 56 anos, preservação exemplar

São João Maria Vianney

Corpo exposto, mantido preservado

São Vicente de Paulo

Exumação recente → preservação parcial

Santa Rita de Cássia

Apenas entre os casos mais conhecidos

São Charbel Makhlouf

Corpo flexível e exalando fluidos por décadas

Vários outros santos

Ex.: Pio X, Zita, Anna Maria Taigi, etc.


Os fenômenos ocorridos com os corpos desses santos e beatos desafiam a Ciência. Na hora de suas mortes, seus átomos estavam organizadas de forma que seus corpos inteiros ou partes deles se preservaram por décadas – alguns exalando perfumes ou fluidos.


Pesquisas na Internet não apresentam relatos de casos de corpos incorruptos noutras religiões, mesmo noutras vertentes cristãs – apenas na Católica.


FREUD, A PSICANÁLISE E A RELIGIÃO


Sigmund Freud pode ser considerado um homem bom. Em Freud: uma vida para o nosso tempo (2012), Peter Gay nos lembra que Freud teve seis filhos e manteve o casamento até o fim da vida, com fortes laços de afeto. Sempre recebeu críticas de religiosos mais fervorosos, inclusive por apresentar a ideia da “sexualidade infantil” em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Mas quem conhece a fundo sua obra rebate tais críticas com segurança. Freud falava da sexualidade infantil como sendo o instinto de preservação da espécie que os animais em geral apresentam. Naquela mesma publicação, afirma que muitos adultos não fazem ideia do quanto podem prejudicar a vida das crianças expondo-as à sexualidade precocemente, tocando suas partes íntimas ou fazendo coisas até mais “grotescas”. Freud era médico neurologista, um homem culto, com princípios elevados considerando a época em que viveu. Dedicava-se a aplacar a dor e a angústia do ser humano. Nos primeiros anos da criação da Psicanálise, atendia casos sem cobrar, especialmente quando se tratava de pessoas em posição social menos favorecida. Certa vez, interrompeu uma viagem de férias para atender uma jovem governanta inglesa que trabalhava no hotel em que se hospedara com a família, em Viena – caso relatado em “Estudos sobre a histeria” (1895).


Contudo, a Psicanálise desenvolvida por Freud é considerada subversiva por alguns motivos. Um dos principais é deixar claro que não somos senhores de nós mesmos – temos o inconsciente. Na teoria Psicanalítica, o inconsciente nos leva a pensamentos, atos e omissões que podem prejudicar outras pessoas e até o próprio sujeito. O Ego, que muitas vezes associamos à nossa consciência e ao nosso senso de "eu", é na verdade uma instância mais frágil do que imaginamos. Ele não é o centro de comando absoluto, mas sim um campo de batalha onde as forças do Id (desejos) e do Superego (proibições) se enfrentam. Ocorre que parte do Ego, parte do Superego e todo o Id são inconscientes. É por isso que, muitas vezes, nos surpreendemos com nossas próprias atitudes, nos arrependemos de coisas que dizemos no calor do momento, ou repetimos comportamentos ou pensamentos que nos prejudicam. O que a psicanálise revela é que essas ações não são meros deslizes. São manifestações do inconsciente.


Enfim, o caráter subversivo da Psicanálise ganha força especial com as alegações de Freud sobre a religiosidade. Para Freud, o homem é que teria criado Deus sua imagem e semelhança. Por seu caráter falho, por seus instintos mais primitivos, por sua falta de segurança em si mesmo, o ser humano precisaria acreditar que existe alguém que lhe provê cuidados e impõe limites. Para não se sentir desamparada, a humanidade teria criado um “Deus Pai Todo Poderoso”, garantidor da justiça e da ordem. A manutenção da religiosidade teria um papel social importantíssimo ao fazer acreditar que uma boa conduta, a solidariedade, o perdão e a caridade pavimentam o caminho para a salvação. A cobiça, o assassinato, a luxúria, a ira e tantos outros pecados levariam o sujeito para o inferno. Assim, por medo de ser castigado, crente no paraíso junto de Deus após a morte, o homem manteria uma boa conduta e todos trabalhariam em conjunto pela prosperidade. Dessa forma, Freud resumia a religião a uma convenção para encorajar homens e mulheres a ter boa conduta, a uma cartilha de proibições para preservar a humanidade dela mesma.


O MAL ESTAR NA CIVILIZAÇÃO


Uma das principais obras de Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930) explica a origem das neuroses como sendo a falha na repressão aos instintos. Na teoria freudiana, o Ego tenta reprimir toda pulsão inaceitável. O conteúdo reprimido é uma energia que precisa ser catexizada e, para tal, busca alternativas como a condensação e o deslocamento. Na condensação, o desejo inaceitável se une a um aceitável para, assim, ser trazido “à tona” pelo Ego. No deslocamento, o desejo reprimido pelo Ego é substituído por outro, satisfazendo a necessidade libidinal do sujeito de forma um tanto enviesada. É pela repressão dos desejos que surgem as neuroses, percebidas pelos sintomas do sujeito neurótico – fobias, obsessões e manifestações histéricas.


Em sua obra, Freud amplia essa reflexão para a vida em sociedade. A civilização exige renúncias às pulsões agressivas e sexuais, criando um ambiente de proteção e convivência, mas também de repressão e desconforto. Essa tensão gera o que ele chama de “mal-estar”, um descontentamento que acompanha a vida em grupo.


Freud destaca três fontes inevitáveis de sofrimento:

01) O corpo, condenado à dor e ao declínio;

02) As relações humanas, permeadas por conflitos de interesses;

03) O mundo externo, que impõe limites à realização dos desejos.


A isso soma-se o sentimento de culpa, nutrido pela tensão entre ego e superego, que se torna um instrumento de coesão social.


É nesse ponto que Freud aborda a religião. Para ele, a religião surge como um recurso psíquico coletivo diante do sofrimento humano — seja pelo corpo, pelas relações ou pelas forças da natureza. Trata-se de uma ilusão criada para aplacar a angústia e oferecer um sentimento de proteção, como se houvesse um Pai poderoso que cuida de seus filhos. Esse sentimento traduz a busca do indivíduo por algo maior que alivie sua solidão e vulnerabilidade. Exatamente porque seria uma tentativa de domesticar a angústia por meio de crenças que funcionariam como defesas psíquicas, a religião era vista por Freud como uma forma de neurose universal da humanidade. Assim como o neurótico cria sintomas para suportar a repressão de seus desejos, as sociedades teriam criado sistemas religiosos para suportar as limitações impostas pela civilização. O preço, contudo, seria a infantilização do sujeito, que permaneceria preso a uma autoridade externa, projetando nela suas esperanças e temores.


Sendo assim, para Freud, a religião não resolve o mal-estar — na melhor das hipóteses, o encobre; na pior, serve como agravante ou fator gerador. Ela oferece consolo, mas ao custo de manter o indivíduo distante de sua autonomia psíquica. Em última instância, a civilização se sustenta pela repressão e pela culpa, e a religião é um dos mecanismos mais poderosos de internalização dessas forças. O homem, que deseja liberdade, cria ao mesmo tempo freios para si próprio, e entre esses freios a religião ocupa lugar central.


CONCILIANDO PSICANÁLISE E RELIGIÃO


Na contemporaneidade, vemos que, quanto mais o homem subverte a tradição, quanto mais cede aos instintos, quanto mais ignora suas figuras parentais e religiosas, menos saudável se parece. Basta observar os presídios, as ruas, as empresas e muitas famílias ‘modernas’. Portanto, parece razoável estabelecer ao menos uma interseção entre psicanálise e religião, usando os recursos de ambas, conforme a necessidade de cada indivíduo ou grupo.

Jacques Lacan, o psicanalista pós-freudiano mais relevante do Século XX, afirmava que a religião triunfaria não apenas sobre a psicanálise, mas também sobre a ciência e todas as demais instâncias da vida humana. Considerava a ciência uma novidade capaz de introduzir perturbações significativas na existência das pessoas. A religião, porém — sobretudo a verdadeira, que ele identificava como a romana — possuía recursos insuspeitados. Sua função seria a de oferecer sentido àquilo que antes era tomado como simples dado natural, iluminando até mesmo as experiências mais enigmáticas, aquelas que chegam a despertar angústia nos próprios cientistas.


A perspectiva de Lacan parece pavimentar um caminho de conciliação da psicanálise com a religião. E quanto a Freud? É preciso discutir a visão do ‘pai da psicanálise’ antes de afirmarmos que psicanálise e religião podem conviver na literatura e no divã. Além de ser um homem culto e muito inteligente, Freud era a pessoa certa, no lugar certo, no tempo certo. Ao estudar medicina, ter contato com a hipnose de Charcot e Breuer, especializar-se em neurologia e ter a sorte de receber pacientes como Anna O; que cunhou o termo “cura pela fala”, o ‘pai da psicanálise’ trabalhou e escreveu por mais de quatro décadas, com didática e lógica notáveis.


Sendo assim, é curioso que Freud não tenha se atentado para o fato de que em todos os lugares, entre pessoas de todas as culturas e classes sociais, sempre tenham existido ateus autodeclarados que mantiveram boa conduta, uma vida digna, fazendo o bem ao próximo. Ele próprio era um exemplo disso. Ou seja, se a religião é necessária para assegurar a boa conduta na civilização, por que também os ateus trabalham pela paz, não matam e não roubam?

Sigamos, agora, por outro caminho – o das neuroses. Se a religião é causadora de neuroses, o que dizer do próprio Freud, ateu, que nunca abandonava seu charuto? Freud dizia que “às vezes, um charuto é apenas um charuto”. No seu caso, era um sério vício. Tanto que o levou a adquirir um câncer na boca, doença que o acompanhou até seu falecimento.


Não obstante essas dúvidas quanto à lógica funcional da religiosidade, sigamos agora a uma reflexão mais filosófica – a Psicanálise de Freud nos mostra que a vida é cheia de metáforas e metonímias. Poderíamos, portanto, localizar o aparelho psíquico no corpo, além do cérebro. Na verdade, esta analogia tem sido utilizada por psicoterapeutas e leigos. A região das vísceras seria o repositório do Id, com seus instintos mais primitivos, com aquilo que herdamos, algo que já chega pronto e que usamos desde o nascimento, nos movendo por nossas necessidades fisiológicas e pulsões mais básicas. O coração seria o Ego, com sua necessidade de pertencer, com a vaidade, a autoimagem; localizado entre o Id e o Superego. Este estaria no cérebro. É no superego que temos a moral, as regras, a culpa e, também, os valores mais nobres.


Curiosamente, além do intestino estar sendo chamado de “segundo cérebro”, é nele – no intestino – no coração e no cérebro, que estão as maiores concentrações de neurônio do corpo humano.


Contudo, quando vemos as figuras dos santos, de Jesus, Maria e José, vemos uma luz mais ao alto, sobre suas cabeças. Os anjos têm halos. É no alto que está o paraíso e é embaixo que está o inferno. Talvez, numa quarta instância extracorpórea, mais ao alto, tenhamos o mais nobre dos valores: o amor - o que aprendemos que é Deus – luz, vida, amor.


A SAÚDE DA ALMA


Freud foi um homem genial, que influenciou o mundo para sempre. E, talvez, tenha se despedido de nós antes que pudesse ver um pouco mais ao alto. Os católicos dizem que não é possível ver a face de Deus estando vivo. Afinal, Deus estaria tão além da nossa compreensão, vê-Lo seria tão arrebatador, que só é possível compreendê-Lo estando noutro plano.


Ao confrontarmos psicanálise e religião, parece que a psicanálise redescobriu o animal em nós. Mostrou nossa pequenez, que não somos os senhores em nossas próprias casas. A religião, por sua vez, nos alimenta com esperança. Nos mostra que valem a pena os sacrifícios, acordar todos os dias e, mesmo diante dos piores reveses, dar graças.


Como psicanalista, devo cuidar das pessoas integralmente – da saúde psíquica e física. E, por que não, da alma? Quando o cliente crê em Deus, valoriza os dogmas da sua igreja e sente-se bem ao segui-los, respeitando a religiosidade do cliente, o psicoterapeuta pode ajudar a traçar um caminho mais curto e seguro para a cura.


 
 
 

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