Como surgiu a Associação Livre
- Fabiano Parreiras
- 28 de jul.
- 3 min de leitura
A Da. Emmy falou para o médico mais ou menos assim:
— Fica quieto e me deixa falar!
O médico era o neurologista austríaco Dr. Sigmund Freud e o ano era 1889 (quase 140 anos atrás). Sabe o que o Dr. Freud fez? Se calou e deixou a Da. Emmy falar. Que mulher brava! E foi assim que nasceu a Associação Livre - regra fundamental da Psicanálise.
Tudo se passou na Europa e começou alguns anos antes dessa consulta da Da. Emmy, já na década de 1880, quando o Dr. Freud começou a perceber que alguns transtornos psíquicos e até manifestações somáticas, ou seja, no corpo, não tinham explicação orgânica (foco da Medicina). Ele se interessou pelo tratamento de pessoas histéricas que se submetiam à hipnose. Freud se uniu a um colega um pouco mais velho, o Dr. Josef Breuer, hipnoterapeuta, na tentativa de remover os sintomas da histeria (noutro vídeo eu explico o que é a histeria).
Trabalhando com Breuer, Freud não estava satisfeito. Ele dizia que a hipnose não funcionava para todo mundo. Ou seja, algumas pessoas pareciam não hipnotizáveis. Outras pareciam curadas pela hipnose, mas tinham recaídas depois de algum tempo.
É assim, mesmo. Não existe um método psicoterapêutico ao qual todos os pacientes se adaptam. Então, Freud estava incomodado; ele acreditava na possibilidade de encontrar um método mais eficaz para tratar daquelas pessoas histéricas da época. Foi então que a Sra. Emmy, uma de suas pacientes, irritada com suas perguntas e exercícios de hipnose, pediu que ele ficasse quieto porque ela precisava falar sobre as suas frustrações e angústias. Ela sentia que falar ajudava a entender melhor as próprias dores e encontrar respostas para suas causas.
Freud, que era essencialmente um grande pesquisador, decidiu ouvir a Sra. Emmy. Ela falou à vontade. Ao final das sessões, aquela paciente passou a relatar uma sensível melhora psíquica.
Com o tempo, Freud percebeu que “associar livremente” (foi como ele chamou a prática) tinha um efeito terapêutico consistente. E foi assim que nasceu o primeiro método psicoterapêutico estruturado da história. Essa coisa de primeiro método psicoterapêutico não sou eu que estou tirando da minha cabeça, não. Tá escrito nesse livrão aqui, do Cordioli e do Grevet, intitulado “Psicoterapias - Abordagens Atuais”, que em sua quarta edição contou com a colaboração de mais de uma centena de médicos, psiquiatras, psicólogos e outros profissionais da saúde.
A Psicanálise é tida como primeiro método psicoterapêutico estruturado porque, até então, os médicos faziam diferentes intervenções na tentativa de estudar os sintomas e curar seus pacientes. A medicina buscava respostas orgânicas e a psicologia científica tinha ênfase em levantar dados (este também é um tema para outro vídeo). Mas Freud criou a psicoterapia com o setting analítico, com analista e cliente sentados, o psicoterapeuta atento à fala do cliente e, acima de tudo, naquilo que não estava evidente; na subjetividade do sujeito.
Mais tarde, Freud acrescentou o divã ao setting analítico. O divã, vale a pena ressaltar, foi adotado por Freud quando ele percebeu que o paciente deitado, relaxado e sem o contato visual direto com o analista, conseguia acessar melhor o inconsciente. Além disso, Freud se sentia cansado depois de passar o dia todo sob o olhar de cada cliente. Ele próprio relatou isso.
Enfim, a Sra. Emmy contribuiu para encontrar este método que chamamos hoje de “cura pela fala”.
Este termo, aliás, “cura pela fala” ou “talking cure”, foi cunhado por outra paciente do Dr. Breuer, chamada Anna O, cuja história indica que erros foram cometidos. Anos depois de publicados relatos do caso, estudiosos constataram que houve interpretações e intervenções errôneas no atendimento de Freud à Anna O. Ainda assim, a obra publicada por Freud e Breuer em 1895, intitulada “Estudos sobre a Histeria”, que conta a história de Anna O; é considerada por muitos o marco inaugural da Psicanálise.
É importante dizer, também, que a Psicanálise foi sendo aprimorada ano a ano, década após década, por mais de um século. Hoje, segundo Cordioli e Grevet, a Psicanálise é considerada eficaz no desenvolvimento psíquico e no tratamento de diversos transtornos.
O início do capítulo 14, na página 222, tem o seguinte parágrafo:
“Atualmente, não faz sentido argumentar que os tratamentos de orientação psicanalítica não são baseados em evidências, pois vários estudos, inclusive ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises, demonstram que eles são tão eficazes quanto as psicoterapias ditas “baseadas em evidência”, com alguns estudos apontando uma potencial vantagem das abordagens psicanalíticas no follow-up.”



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