Sobre "Luto e Melancolia"
- Fabiano Parreiras
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Você sabe qual é a diferença entre o luto - aquela tristeza profunda diante da perda de alguém que a gente ama - e a depressão? A diferença é o objeto.
Quando morre alguém muito importante na nossa vida, parece que tudo fica cinza, perdemos energia, não queremos achar graça nas coisas. Na maioria das vezes, nós choramos e parece que nada faz muito sentido. Dependendo da importância que o falecido tem pra nós, parece que nem o trabalho faz sentido; que não vale a pena se esforçar. Nem conseguiríamos porque, afinal, a energia vai embora. A vontade que dá é de ficar deitado no quarto, sem fazer nada; naquela tristeza profunda, só lembrando da pessoa que se foi, pensando naquela perda.
O que isso tem a ver com depressão? Tudo! A diferença é que no luto, o mundo se tornou pobre e vazio; na depressão, é o próprio ego que se torna pobre e vazio.
No texto “Luto e Melancolia”, de 1915, Freud explica que, na melancolia (depressão), o sujeito sofre uma perda amorosa, por exemplo, mas não consegue aceitá-la. Em vez de abrir mão do objeto perdido, ele introjeta esse objeto (seria o mesmo que “engolir” o objeto). O objeto passa a fazer parte do próprio ego do sujeito..
Seria mais ou menos assim: um filho desaponta profundamente a sua mãe. Como essa mãe ama demais o seu filho, ela não se permite odiá-lo ou “abandoná-lo”. O sentimento negativo, então, se volta contra a própria mãe. A consequência seria a depressão.
Mais tarde, porém, surgiram interpretações um pouco diferentes, levando à ideia de que a depressão é a morte de partes do sujeito. Então, o filho desaponta a mãe. O ato do filho, seja lá qual for, mata uma parte daquela mãe. Mesmo que não tenha sido intencional porque isso vai depender da interpretação da mãe, no caso.
Outros exemplos:
A demissão de um emprego mata a imagem de sujeito competente que havia num trabalhador que não esperava ser demitido;
A traição do cônjuge mata a pessoa merecedora de consideração que existia no cônjuge traído;
A rejeição pelo grupo de amigas mata a pessoa querida e merecedora de prestígio que a rejeitada imaginava existir…
Há muitos anos, eu trabalhei com um médico que fazia uma analogia interessante. Ele dizia que a vida é como uma ponte. Dois pilares sustentam a ponte da vida - o afetivo e o profissional. Quando um dos pilares vem abaixo, talvez o outro consiga sustentar. Mas quando os dois pilares vêm a ruir, a ponte cai no vale, na depressão. Pode acontecer, por exemplo, quando o sujeito se aposenta exatamente no mesmo período em que os filhos se casam e vão embora - a chamada crise do ninho vazio.
Mas alguns alguns desequilíbrios bioquímicos e outros fatores podem levar à depressão. A depressão é um transtorno complexo e multifatorial (genético, inflamatório, psicossocial, ambiental). Alguns casos devem ser tratados com a ajuda de medicamentos e algumas depressões respondem apenas à psicoterapia e mudanças de estilo de vida, sem alteração neuroquímica detectável crônica.
Enfim, todo caso deve ser tratado porque viver vale muito a pena! Mas para quem está em depressão, parece não valer. E fica difícil pedir ajuda. Então, se você se sente um pouco como eu falei aqui, saiba que pedir ajuda exige uma baita coragem; é difícil, mas o céu pode ficar azul de novo; o ar pode ficar mais leve; você pode perceber que todo mundo tem o direito de errar. O que vale, mesmo, é a intenção de acertar de agora em diante. Porque você é quem devia ser e está onde devia estar. Mas quem foi que disse que não pode melhorar?



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